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Dra. Izumi Kurata

   CRM 14340

Antidepressivos e anticonvulsivantes para Dor: por que meu médico prescreveu um remédio que não é analgésico?

Quando uma pessoa tem dor crônica, ela espera sair da consulta com uma receita de anti-inflamatórios ou de analgésicos tradicionais. Não é raro surgir dúvida ou surpresa quando o médico prescreve um antidepressivo ou um anticonvulsivante.


Partimos do princípio que esses medicamentos servem somente para tratar transtornos psiquiátricos ou epilepsia, mas na realidade esses medicamentos são usados há décadas para ajudar no controle da dor crônica. Para entendermos melhor, precisamos saber como é o mecanismo da a dor.


A dor não é apenas um problema no local da lesão.


Quando torcemos um tornozelo ou cortamos um dedo, as terminações nervosas presentes no tecido enviam sinais de alerta para o cérebro. Esse é um mecanismo importante para a proteção do corpo. Normalmente, à medida em que a lesão melhora, a dor diminui.


No entanto, nem sempre é assim.


Em alguns casos, o sistema nervoso pode permanecer em estado de alerta mesmo depois que a lesão inicial melhore. É como se o alarme continuasse disparando sem necessidade.


Imagine que você dormiu na praia e esteja com uma queimadura solar. Um simples toque na pele passa a ser desconfortável porque os nervos da região ficam mais sensíveis. Isso é uma sensibilização periférica.


Após uma lesão ou inflamação as substâncias químicas liberadas pelo organismo tornam os nervos mais reativos. Estímulos que antes eram tolerados passam a gerar dor com mais facilidade. Esse mecanismo ajuda a proteger a área lesionada durante a recuperação; o problema surge quando essa sensibilidade persiste por muito tempo. É a sensibilização central.


Imagine que o volume de alarme do corpo foi aumentado. Na sensibilização central, ocorre uma amplificação dos sinais dolorosos dentro da medula espinhal e do cérebro. O cérebro passa a interpretar estímulos normais como ameaças.


A dor passa então a ser mais intensa do que o esperado; a dor se espalha por várias regiões do corpo; ocorre sensibilidade exagerada ao toque; a dor passa a ser provocada por atividades simples do dia-a-dia; surgem a fadiga e dificuldades para dormir.


Felizmente, existe uma via de mão dupla no nosso organismo. O cérebro também envia mensagens para controlar e reduzir a transmissão da dor. É a via de inibição descendente da dor. Ela funciona com um freio natural capaz de diminuir a intensidade dos sinais dolorosos antes mesmo que eles sejam percebidos.


Em algumas pessoas com dor crônica esse freio se torna menos eficiente e os sinais dolorosos passam a circular com maior intensidade.


É aqui que os antidepressivos entram como auxiliares na ação analgésica, aumentando a disponibilidade de neurotransmissores que participam diretamente no sistema de inibição descendente da dor. Esse benefício ocorre mesmo em pessoas que não apresentam depressão.

 

Na dor crônica, alguns neurônios se tornam excessivamente excitáveis, disparando sinais de forma exagerada. Os anticonvulsivantes ajudam a estabilizar essa atividade anormal.


Uma das maiores descobertas da medicina moderna da dor é que raramente existe uma única causa para a dor crônica, da mesma maneira que raramente existe um único tratamento capaz de resolver tudo. Por isso a analgesia deve ser multimodal, atuando em pontos distintos do sistema da dor e podem fazer parte deste tratamento: a educação em dor, exercícios físicos, reabilitação, estratégias psicológicas, medicamentos, intervenções invasivas.


Se o seu médico prescreveu antidepressivos ou anticonvulsivantes para tratar a dor, não significa que sua dor seja psicológica ou imaginária. Eles ajudam a reduzir a sensibilização do sistema nervoso e fortalecer os mecanismos de controle da dor.


Quanto mais entendermos como a dor funciona, menos espaço existe para o medo e os preconceitos relacionados ao tratamento.


A informação não elimina a dor, mas pode ser o primeiro passo para recuperar o controle sobre ela.

 

mulher tocando a testa, pensativa, em dúvida sobre seu tratamento de dor

 

 

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