A microbiota e as doenças neurológicas
- Izumi Kurata
- 30 de mai. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 21 de jul. de 2024

O correto equilíbrio da composição da microbiota intestinal é vital para a saúde física e mental e para a prevenção e manutenção de várias doenças.
O intestino é conectado ao nosso sistema nervoso central e influencia na função cerebral através dos nervos, da circulação de sangue e pelas vias linfáticas. Outro componente essencial da interação entre o cérebro e o intestino é a microbiota.
A microbiota é um ecossistema complexo que possui trilhões de microorganismos. Existem 100 bilhões de neurônios no cérebro humano e 500 milhões em nosso intestino.
A microbiota intestinal é afetada pela dieta, metabolismo, idade, geografia, estresse, estação do ano, temperatura, sono, medicações e outros fatores.
Sabemos que os hábitos de vida como o aumento do consumo de alimentos processados e a diminuição do consumo de carboidratos complexos, frutas e vegetais alteram a composição da microbiota, levando a uma condição chamada disbiose.
A disbiose intestinal é um desequilíbrio do microbioma intestinal que envolve a perda de espécies comensais e aumento de microorganismos patogênicos. Essa desarmonia pode alterar a disponibilidade de nutrientes, levando à inflamação crônica, enfraquecimento do sistema imunológico e iniciar vários tipos de doenças.
A interação entre as inúmeras estruturas do cérebro e o trato gastrointestinal envolvendo a microbiota compõe o conceito de eixo microbiota cérebro – intestino. Existem vários caminhos envolvendo esse eixo. A via de comunicação mais rápida entre cérebro, intestino e microbiota é a via neural, e a microbiota pode afetar a função do sistema nervoso central de modo bidirecional pelo nervo vago.
De modo secundário, a via endócrina – circulação de neuropeptídeos e hormônios – interagem com essas estruturas distantes intestino e o cérebro.
Algumas substâncias neuro ativas no intestino podem afetar a atividade neuronal no cérebro. Alguns neurotransmissores precursores do intestino podem atravessar a barreira sangue -cérebro.
A terceira via, imune, é influenciada pela microbiota intestinal. Como os componentes da microbiota interagem com as células e receptores da mucosa intestinal o tempo todo, estimulam o controle da resposta imune, importante na relação simbiótica entre a microbiota e o hospedeiro. Entretanto, alguns gatilhos inflamatórios como uma bactéria patogênica ou uma exposição a substância tóxica podem ativar as células imunes, que irão modular a atividade neuronal através da liberação de neurotransmissores e citocinas.
Finalmente, várias bactérias da microbiota podem metabolizar o triptofano, limitando o seu uso como precursor para o indol, melatonina e serotonina. Baixos níveis de serotonina estão ligadas a desordens mentais e neurológicas.
Além dessas vias bioquímicas, a microbiota produz metabólitos como ácidos graxos de cadeia curta e sintetiza outros neurotransmissores. Geralmente, os neurotransmissores não atravessam a barreira sangue – cérebro, mas as células endoteliais dos capilares podem transportar ativamente vários neurotransmissores precursores para dentro do cérebro. A disbiose pode interromper essas vias induzindo doenças mentais e neurológicas.
As doenças neurológicas como o Alzheimer, Parkinson, esclerose múltipla, epilepsia; a dispneia obstrutiva do sono, a insônia, depressão, ansiedade, doença do espectro autista, esquizofrenia, distúrbio bipolar estão intimamente relacionadas com alterações na microbiota.
Uma das estratégias para tratar a disbiose inclui a modificação dietética. O método de tratar a disbiose e manter a composição da microbiota intestinal sadia inclui limitar os alimentos processados tanto quanto possível. Além disso, as dietas devem incorporar alimentos fermentados que são ricos em probióticos – kefir, iogurte com culturas ativas, picles de vegetais, produtos lácteos fermentados, kombucha, kimchi, miso, alimentos ricos em fibras – frutas frescas, grãos integrais, vegetais, legumes e feijões, ervas aromáticas, alimentos ricos em polifenóis, ácidos oleicos, ácidos graxos ômega 3. Os pacientes devem evitar o consumo de ácidos graxos saturados, carboidratos refinados, ingesta elevada de proteínas e/ou açúcar.
Os probióticos – microorganismos ativos com benefícios à saúde, os prebióticos – fibras alimentares não digeríveis que estimulam a atividade de microorganismos específicos, os simbióticos – combinação de probióticos e prebióticos, são potenciais intervenções terapêuticas para a disbiose intestinal, consideradas seguras para a maioria da população.
Referência:
Naufel MF, Truzzi GM, Ferreira CM, Coelho FMS. The brain-gut-microbiota axis in the treatment of neurologic and psychiatric disorders. Arq Neuropsiquiatr. 2023 Jul;81(7):670-684.


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